17 Jun

Desapego: amar é soltar e deixar livre

“O problema não é tropeçar, mas apegar-se à pedra”. Faço assim, a introdução ao tema desta semana, o Desapego, um conceito que ainda suscita muita confusão. O desapego é uma palavra meio agressiva para o nosso ego. Tudo o que vivemos na Terra tende a ter apego. Mas desapego não significa seres uma pessoa fria e insensível que não sabe dar amor. Pelo contrário, Desapego significa saber amar, apreciar e envolver-se nos relacionamentos com uma visão mais equilibrada e saudável, libertando-se dos excessos. As pessoas que são desapegadas sabem que nada lhes pertence e, por isso, libertam-se emocionalmente, dando oportunidade ao outro de ser quem ele é. São as crenças da necessidade daquilo e do outro, que nos leva a ficar apegados. Condicionamos a nossa felicidade interior pelas coisas que estão fora.

Quem vive no desapego alcança uma maior liberdade emocional, vivendo de uma forma mais honesta e de acordo com as suas necessidades. Devemos fazer o nosso próprio caminho sem prejudicar ninguém e não permitindo que os outros nos moldem à sua semelhança.
Para mim, o desapego é a capacidade de abrir mão de objetos, pessoas, ideias e situações com Amor Incondicional por tudo aquilo que É mas não nos pertence.
Muitas vezes, para conseguirmos mudar de vida temos que nos desapegar daquilo que não nos serve mais. Essa é a parte mais difícil, mas quando o conseguimos, tornamo-nos pessoas mais calmas e recetivas às mudanças e imprevistos. O apego está relacionado ao medo de perder algo mas a verdade é que aquilo que tanto amamos hoje, amanhã não estará mais aqui.
Quem nunca guardou um vestido antigo, pois a moda pode voltar? Quem não ficou num relacionamento destrutivo com medo de ficar sozinha? São nesses momentos que precisamos aprender o desapego, que está ligado ao amor Incondicional.
O mestre indiano Osho tem um texto chamado “O Desapego” que explica bem como essa relação funciona. Eis um pequeno trecho:
“Todas as nossas misérias e sofrimentos não são nada mais do que apego. Toda a nossa ignorância e escuridão é uma estranha combinação de mil e um apegos. Nós estamos apegados a coisas que serão levadas no momento da morte, ou mesmo, talvez, antes. Pode estar muito apegado ao dinheiro, mas pode ir à bancarrota amanhã. Pode estar muito apegado ao seu poder e posição, mas eles são como bolhas de sabão. Hoje eles estão aqui; amanhã eles não deixarão nem um traço.” (Fonte: Astrocentro).
Quanto mais obtemos conhecimento mais nos libertamos. Mas se ele não for colocado em prática ainda mais nos aprisionamos! Portanto, se alguém acha que ter uma vida mais simples, minimalista, é viver sob regras, normas e sentimentos de culpa por ter comprado – escondido – aqueles sapatos lindos, está enganado.
Somente nós somos capazes de saber o que é o melhor para as nossas vidas. Portanto, conversem, debatam, discutam, leiam muito, cada vez mais, mas jamais deixem que normas de conduta controlem o vosso estilo de vida. Minimalismo é liberdade. Minimalismo é viver uma vida ampla, com menos preocupações e repleta de realizações. Experimentem Aquilo que vieram experimentar! Sintam o que vieram sentir! Pensem o que vieram pensar! Isso é Viver!
Há algumas formas de se conseguir praticar o desapego. Partilho-as de seguida:
1 – Torna-te responsável por ti mesmo
A verdade é que ninguém pode viver a vida por ti. Ninguém pode respirar por ti, sentir a tua tristeza ou alegria. Tu és o arquiteto da tua própria vida e de cada passo que dás. Assume a responsabilidade. Através do desapego tomas consciência de que és totalmente responsável por ti mesmo e mais ninguém.  Não responsabilizes os outros pela tua felicidade ou infelicidade. Se a opinião dos outros interfere nos teus níveis de satisfação e felicidade, nunca vais conseguir ser feliz porque raramente os outros vão suprimir as nossas necessidades.
Ganha coragem e torna-te o agricultor da tua Vida. Cultiva a tua própria felicidade, sê responsável, maduro, consciencializa-te das tuas escolhas e consequências e nunca deixes que o teu bem-estar dependa da opinião alheia.
2 – Vive no presente, aceita e assume a tua realidade
Nada permanece sempre igual. Nada é eterno, tudo flui e retoma o seu caminho. Muitas pessoas estão sempre focadas no que aconteceu no passado, presas ao que lhes aconteceu e isso acaba por ser um fardo pesado que carregamos no presente.
Mesmo que esse passado tenha sido doloroso, aceita o que te aconteceu e escolhe em quem te queres tornar com o que te aconteceu. Perdoa os outros. Perdoa-te a ti. Liberta-te de mágoas. Vive o aqui e agora. Ser desapegado é viver somente no momento Presente.
3 – Liberta-te e permite que os outros sejam livres
A liberdade é a forma mais plena que encontramos para aproveitar e compreender a vida em toda a sua imensidão. Ser livre e desapegado não nos impede de criar vínculos com os outros. Criar vínculos, amar e ser amado, faz parte do nosso crescimento pessoal.
O desapego significa também que nunca deves assumir a responsabilidade pela vida dos outros, nem tão pouco impor-lhe os teus princípios. Se fizeres este caminho surgem os problemas de relacionamento e o sofrimento. Respeita o processo evolutivo dos outros. Não procures fora de ti o que te falta. Amar é deixar livre. É deixar ir mesmo antes que se vá.
Os apegos exagerados nunca são saudáveis. Por exemplo, os pais que são obcecados por proteger os filhos, impedem-nos de crescer e avançar com confiança para explorar o mundo. Desapegar-se é fundamental nesses casos porque cada um deve sair dos seus limites de segurança para enfrentar o imprevisto e o desconhecido. Desapegar não é abandonar a família, cortar relações. É apenas respeitar o outro como ele é.  É soltar, é deixar livre.
Por exemplo, uma pessoa que tem um gato como animal de estimação. O gato é um animal felino livre. Tens que o deixar ir sabendo que ele vai voltar. Se queres praticar o desapego adota um felino livre, não um cão que podes domesticar.
4 – Recorda que as perdas irão acontecer mais cedo ou mais tarde
Devemos aceitar que, nesta vida, nada dura para sempre. A vida, os relacionamentos e até os bens materiais acabam desaparecendo, deslizando através dos nossos dedos. As pessoas vão-se embora, as crianças crescem, alguns amigos desaparecem e perdemos alguns amores… Tudo isso faz parte do desapego. Temos que aprender que isso é normal e enfrentar essa situação com tranquilidade e coragem. O que nunca pode mudar é a tua capacidade de amar. Começa sempre por ti mesmo.
Nada é nosso. Tudo o que temos somos nós. A única coisa que vamos ter para sempre é a nossa essência. Constrói a partir de agora um novo Eu. Desapega-te. Abraça o teu ego. Abraça-o muito. Tenta silenciar a mente barulhenta e dá-te um tempo a ti mesmo para ires dentro de ti e perceber o Ser maravilhoso que és. É no vazio que se encontra o Todo. É no vazio que se encontra a tua essência, a fonte de tudo o que precisas, sem apego ao mundo exterior.

Recorda: tu já tens tudo o que precisas. Tu és um Ser completo. Tu já te preenches e satisfazes. Não precisas de procurar fora o que já tens dentro de ti!
O apego fecha. Porque no apego existe o medo da perda, o conflito, a expetativa. Só perdemos o que não temos e nós não temos nada. E tudo se vai.
O amor só é verdadeiro amor se for amor sem apego! Isenta o outro da responsabilidade de corresponder às tuas necessidades. Ninguém está aqui para suprir as nossas necessidades. Essa é a nossa tarefa. Toda a expectativa é tua então és tu que deves corresponder a ela, não o outro.
Olha para as pessoas que tu amas e diz que as amas em Liberdade! Liberta-as da necessidade de te fazerem Feliz e Ama-as simplesmente independentemente da troca. O desapego é o caminho para a Liberdade. A Liberdade de seres quem és e a Liberdade de permitires que o outro também seja o que é!